Uma das coisas boas dessa vida de cientista é que nem sempre você precisa buscar temas para fazer posts em seu blog, já que boa parte das vezes seus amigos de fora da academia aparecem solicitando pareceres acerca dos fatos mais diversos do cotidiano. A pauta hoje me despertou uma curiosidade imensa e surgiu a pedido do meu valoroso amigo Rodrigo Balthar Furman, conhecido nas rodas pela alcunha de “Ken Himura”. Chiclete, mascar ou não?

Me lembro bem daquele vídeo bem famoso traduzido pelo Pedro Bial intitulado “Filtro Solar”. Especialmente uma certa passagem onde ele menciona algo ter a mesma utilidade que “mascar um chiclete para resolver uma equação de álgebra”, essa que obviamente é nenhuma, correto? Não se a neurociência puder dizer algo sobre.

                              Masque mais!


Levantando a literatura sobre o tema encontrei  diversos achados correlacionando o ato de mascar chicletes a um aumento bastante significativo na atenção e no estado de alerta como um todo. Incluindo nessa conta um aumento nos batimentos cardíacos e nos níveis de cortisol, que é um hormônio relacionado a situações de maior tensão. Para melhorar, chicletes ainda reduzem os lapsos na atenção e auxiliam na concentração.

O que nos sugere que  várias atividades  diárias, como  a execução de uma prova ou até mesmo dirigir  possam ser melhoradas com o uso dessa ferramenta tão simples.

Claro, porém, que nem tudo são flores. Existiria alguma contrapartida para todo esse ganho quase que mágico? Nenhum muito relevante. Apenas um aumento na taxa de erro nas tarefas, resultante do incremento na velocidade de reação que é causado pelo pico na atenção. Mas não precisam se afligir: é algo comum e está associado a qualquer elevação no alerta. Efeito similar ao causado, por exemplo, pela cafeína.

Ainda existe uma outra questão que me faria sugerir o uso constante de chiclete: alguns estudos demonstram bons ganhos em questões relacionadas a memória, mas a literatura nesse quesito é controversa, com evidências pró e contra o nossa querida goma de mascar. E a última boa notícia é que não existe diferença no ganho para “mascadores regulares” e “mascadores ocasionais”.

Os motivos por detrás desses ganhos permanecem um mistério. Uns sugerem que seria por um aumento no aporte de glicose para as células, outros que poderia ser em virtude da excitação causada pelo mascar ou pelo sabor do chiclete em si. O que se sabe, por fim, é que o chiclete é um bom amigo e deve ser um companheiro dos motoristas, dos estudantes e dos profissionais que precisem estar atentos em seus trabalhos. Isso mesmo com um dos trabalhos sugerindo que o efeito duraria por apenas 20 minutos, mas tudo bem, até lá o gosto já acabou mesmo. Não é?

Fontes: Chewing gum and cognitive performance: a case of a functional food with function but no food? (Scholey, A. , Appetite 2004 Oct;43(2):219-20; discussion 221-3 : www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/15458809)

Effects of chewing gum on cognitive function, mood and physiology in stressed and nonstressed volunteers (Andrew Smith, Nutricional Neuroscience, 2010: http://tinyurl.com/6mfswjm)

The effect of chewing gum on physiological and self-rated measures of alertness and daytime  sleepiness (Andrew J. Johnson, Physiology & Behavior, Volume 105, Issue 3, October 2011: http://tinyurl.com/c4q9kfq)

Cognitive advantages of chewing gum. Now you see them, now you don’t. (Appetite. 2011 Oct;57(2):321-8. Epub 2011 May 27: http://tinyurl.com/cqkwznd)